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sábado, 8 de outubro de 2022

O objeto caidor não identificado

Fran tinha 9 anos e era uma menina preguiçosa, tão preguiçosa que não gostava de seu nome, por ser muito grande: Francisca, por isso pedia para chamarem-na de Fran, assim ficava mais fácil, mais rápido, mais resolvido.

Coisa que mais detestava era acordar cedo. E não achem que cedo para ela era cinco horas da manhã, não! Para ela cedo é nove horas da manhã. Pois, então, está muito feliz esse ano que estuda à tarde, e a perua passa na casa dela ao meio dia, assim ela acorda onze horas só para se trocar e arrumar o material... a não ser quando a Dona Chatilda a manda fazer as coisas antes de ir para a escola.

Dona Chatilda era como ela chamava a mamãe. Claro que só ela sabia disso, pois NUNCA diria a mamãe que a chamava assim, pois seria capaz de perder os dentes, não por força das palavras e sim pela força do tapão que mamãe, vulgo Dona Chatilda, remeteria contra sua boca.

E para variar hoje era um dia desses. Fran deveria acordar cedo para limpar o quintal, antes de ir para a escola, porque Lola havia emporcalhado todo, espalhando o lixo que ela havia derrubado, fuçado e comido e vomitado, durante a noite. Fran estava muito brava, por ter que acordar cedo, e mesmo que fosse só uma hora antes, já era a tortura, uma escravidão, como ela disse:

- Você está me escravizando, manhêeeeeeee!

- Para de frescura e me ajude, pois estou saindo para trabalhar, e a Lola é nossa cachorra, você precisa dividir as responsabilidades comigo! Sua avó não tem obrigação de fazer isso!

- Ahhhh, mãaaaaaaaaaaaaaaeeeeeeeeeee! – Fran levantou sonolenta e foi para o banheiro. Ganhou um beijo da mãe e outro da avó.

Foi à cozinha e abriu a geladeira, nada, não tinha nadaaaa! Nada que ela quisesse, tinha bastantes legumes, feijão, um pouco de sopa, mas nada do que ela queria. Bufou e bateu a porta da geladeira com força, saiu arrastando o chinelo.

- Não bate a porta da geladeira, menina!

Fran ignorou e pegou um copo, encheu de água na torneira e bebeu a grandes goles, encheu de novo e bebeu mais. Estava deliberadamente enrolando. A avó disse:

- Vai logo, Dona Enrolilda.

- Hummmmmmmmm. 

Enfim, ela chegou ao quintal, o mau cheiro era insuportável, era um caos total. Pegou a vassoura e a pá, começou a varrer e colocar tudo no saco de lixo o mais rápido que podia, e em seus pensamentos só tinham uma palavra: RÁPIDO, RÁPIDO, RÁPIDO...

E quando tudo já estava no saco de lixo, ela foi pegar a mangueira no muro, houve algo muito estranho, que na verdade aconteceu bem rápido no tempo normal, mas para a Fran pareceu acontecer em câmera lenta. Quando ela parou para desenrolar a mangueira do suporte, sentiu uma presença ao seu lado direito e acima da sua cabeça, como quando há uma pessoa olhando insistentemente para você, e você nem mesmo havia reparado que havia uma pessoa ali, quanto mais que ela estava olhando para você.

Porém, quando Fran teve o reflexo para olhar para cima e para a direita, já era muito tarde, pois ela não era tão rápida quanto a gravidade, e o corpo que se desprendia em queda do muro ao chão passava zunindo pelo seu ouvido no momento em que ela começou a levantar a sua cabeça.

Quando seus olhos atingiram o topo do muro, vazio, com o céu enublado e acinzentado já havia soado oco o TOC batido no chão daquilo que a horrorizaria quando o movimento da cabeça sincronizasse com o do som, muito mais rápido que seus reflexos:

No chão havia uma barata com as patas para cima, se debatendo loucamente para virar! Uma barata que quase caiu no seu cabelo, que quase caiu na sua cabeça! Uma barata que estava se esperneando e ela, Fran, não conseguia se mexer, gritar ou reagir, só ficava ali, com a cabeça inclinada e os olhos petrificados, para aquela barata.

22/11/2018

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

PAIXÃO

 Tão linda, tão cremosa, quis obter para mim. Aquela linda... lasanha...


Autora Emily 28/9/2022

#miniconto #microconto

ASTRONAUTA

 Meus pais dizem que aquele grande queijo no céu das noites se chama Lua, deve de ser aquele tipo de queijo que os velhos ricos comem, quero provar um dia. Vou visitar a dona lua! E levar uma tupperware! Tomara que ela me deixe pegar um pouco, trazer pra Terra e dividir com todo mundo!

Autora Emily 28/9/2022


#miniconto #microconto


PERDIDA

Olhava em volta, deserto, solidão. Sentia-me perdida sem estar, me sentia sozinha sem estar, todos passavam e não me percebiam, não queriam perceber, quando de repente vi a luz da minha vida, me senti quente novamente, havia alguém ao meu lado, não estava sozinha, sem compromisso ele está comigo a me amar.

Autora Emily

#miniconto #microconto

A DOR DO AMOR

 Às vezes a vida não é como a gente pensa, a pessoa que você mais ama pode detonar sua mente, deixando você sem sentido e sentimentos, e agora, quem eu amo mais? O amor ou a solidão?

Autor Derik 28/9/2022


Aquela garota

Eu daria tudo pela aquela garota dos olhos castanhos, mas ela namora uma loira linda que é incrível com ela.

"Nunca vai ser eu"

"Eu te amo sabia"

Quando eu estou com ela não consigo lembrar de um mundo ruim lá fora, apenas nós contra o mundo, nunca serei eu no lugar dela.

Não sei explicar, mas com você me sinto segura e feliz, de um jeito que nunca me senti com ninguém.

Ela é minha amiga e ela sempre poderá contar comigo para tudo, e sempre vou ama-la por muito tempo, ela me faz ter as risadas mais sinceras e verdadeiras como ninguém nunca fez.

Poderia passar horas, dias, meses ou até anos para falar sobre o que sinto por você, mas percebi que amar é melhor que dizer sobre amar, mesmo usando todas as palavras mais lindas do mundo.

Mas será que um dia terei uma chance com ela ou deverei deixar isso escondido ainda?

Se é assim, ela ainda não irá saber.

Porém, enquanto eu sofria solitária recebi um recado, chamando para tomar sorvete depois da aula, virei para o Lucas e perguntei :

- A Mia não está mais namorando?


Autora Anna Clara


#conto

O ENCONTRO

 Hoje está uma noite muito turbulenta, cheia de raios e trovões,  sinto que alguma coisa está atrás de mim e quando eu olho não vejo ninguém. Minha intuição diz que há alguém me observando como um pedaço de carne. Porém, de começo não ligo e vou para a cozinha, olho para o chão e vejo um corpo, eu conheço esse corpo e coloco a mão em seu ombro e sinto tocarem em meu ombro ao mesmo tempo.


Autor Guilherme


#miniconto #microconto

MENTIRAS

 -Cadê o pai, mãe?

-Hoje Ele vai chegar tarde do serviço, querida.

Bom, isso era uma mentira.


Autora Rayssa 28/9/2022

#miniconto #microconto

ÚLTIMA SONATA

 Em cima do piano tinha um copo de veneno, quem bebeu? Fui eu.

Autora Rayssa 28/9/2022


#miniconto #microconto

A reviravolta do cachorro

 

Eu era um cachorro. Tinha um dono. Eu o amava, ele também me amava. Porém, um dia um cachorro atacou-o, traumatizando-o, assim mudando comigo também. Um dia ele me cumprimentou, eu o mordi, matando-o. Agora ele sentirá o que senti por esse tempo.


Autor Pedro 28/9/2022


#miniconto #microconto

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Carona à garota perdida

 Laura Lucy Dias - audiovisual




Lúcia acordou naquela noite à beira da estrada, estava bastante frio e não sabia para onde deveria se encaminhar, fazia tanto tempo que ela caminhava a ermo, procurando alguém para salvá-la. Estava tudo muito silencioso, era possível distinguir sons de corujas na mata, assim como ouvir claramente seu coração que vinha em um compasso perfeito.

Lúcia resolveu caminhas bem no meio da estrada, seguindo as faixas contínuas que se desenhavam pela frente, escolheu a direita para seguir. A luz era apenas a da lua, lembrava-lhe as estradas interioranas que lhe serviram de caminho nas viagens com seus pais para visitar os avôs, dava para ver a pouca distância à frente e como estava frio, havia uma espécie de neblina que encobria o caminho futuro, o que lhe dava um medo agudo. De repente uma ponta de luz se deu em meio a neblina e foi crescendo de encontro à menina, que parou para esperar. Logo o som do motor do carro e da música que tocava alcançaram seus ouvidos.

O carro preto e cumprido parou e a motorista abriu a janela:

- Achei que fosse uma assombração! O que faz sozinha a esta hora? Quer uma carona?

- Sim, eu quero! Eu estou perdida.

- Sobe aí.

A motorista era uma mulher incomum, muito pálida, mas era uma mulher negra, bonita e muito alta. Tinha o cabelo rebelde e pintado de violeta, tinha piercings, tatuagens e usava roupas prestas com spikes espalhados. O som alto foi amenizado para que pudessem conversar:

- Eu sou Care, Care Onte, e você?

- Meu nome é Lúcia. Obrigada por me dar uma carona.

Care virou o carro de volta à neblina, no sentido em que Lúcia iniciara a sua caminhada naquela noite.

- Como você se perdeu?

- Eu não sei, faz muito tempo que estou perdida, estou tentando voltar para casa.

- Dá para ver essa sua roupa é muito estranha, e está bem sujinha não acha? Vou levar você para um lugar onde possa se lavar e possamos procurar um bom lugar para você, pois há muito é esperada.

Lúcia assentiu com a cabeça, o que podia fazer? Lembrava-se de algumas coisas, mas nem todas, nem mesmo sabia como viera parar aqui sem seus pais, achava que poderia ter sido um acidente de carro, tinha medo de que seus pais estivessem mortos. Durante o caminho as músicas que tocavam naquele carro só arrepiavam Lúcia, Care não era de conversar e por isso não sabia se queria conversar também.

- Sabe, não costumo dar carona assim, eu costumo transportar pessoas, porém, sempre há um preço. Mas você não deve ter nenhuma moeda aí, não é mesmo? – Care riu descontroladamente, parecia muito feliz, mas não parecia uma pessoa normal feliz.

Chegaram à beira de um rio, onde uma ponte ligava a beira do outro lado, muito longe. Lúcia dormiu e não sabia quanto tempo, quando Care a acordou e disse:

- Vem conhecer o meu bichinho de estimação. – E assobiou chamando, como se fosse um cão, mas... não era um cão normal, ele era gigantesco e ele tinha três cabeças. – Não se preocupe Lúcia, ele só morde se você tentar fugir daí de dentro. – Alertou Care enquanto agarrava a garota para levar pelo portão escuro que havia atrás do cão.


O cão de caça

 Lovecraft



Em meu torturado ouvido ressoa incessante um guinchar e farfalhar vindo de um pesadelo, e um uivo débil e distante que parece vir de um cão gigantesco. Não é um sonho - não é, eu temo, sequer loucura - pois muito já me aconteceu para que tal dúvida ainda exista.

St John está todo mutilado; Só eu conheço o porquê, e tanto é meu conhecimento que estou prestes a estourar meus miolos por medo de ser mutilado da mesma maneira. É fundo em escuros e intermináveis corredores de sinistra fantasia que rodeia o meu Nêmese negro e sem forma que me leva à auto-aniquilação.

Que os céus perdoem a tolice e morbidez que nos trouxe a um tão monstruoso destino!

Fatigado das trivialidades de um mundo prosaico; onde até os prazeres do romance e da aventura logo se tornaram banais, St John e eu seguíamos com entusiasmo cada movimento estético e intelectual que prometia um adiamento de nosso tédio devastante. Os enigmas dos simbolistas e os êxtases dos pré-Raphaelitas todos foram nossos em seus tempos, mas cada ânimo novo se drenava cedo demais, de seu apelo e sua inovação distrativa.

Só a sombria filosofia dos decadentes podia nos ajudar, e até isso só nos era efetivo ao aumentarmos gradualmente a profundidade e diabrura de nossas penetrações.

Baudelaire e Huysmans logo estavam logo esgotados de emoção, até que finalmente restou a nós apenas o mais direto estimulo de aventuras e experiências anormais pessoais. Foi essa terrível necessidade emocional que eventualmente nos levou a essa detestável conduta que até mesmo em meu horror presente eu menciono com vergonha e timidez - esse extremo hediondo de atentado à humanidade, a abominável prática de roubar túmulos.

Eu sou incapaz de revelar os detalhes de nossas chocantes expedições, ou de catalogar sequer parcialmente os piores dos troféus que adornam o museu sem nome que preparamos na grande casa de pedra onde coabitávamos, sozinhos e sem servos. Nosso museu era um lugar blasfemo, impensável, onde com o gosto satânico de nossa virtude neurótica construímos um universo de terror e decadência para excitar nossa sensibilidade desgastada. Era uma sala secreta, distante, distante, no subsolo; onde enormes demônios alados esculpidos em basalto e ônix vomitavam de suas largas bocas sorridentes uma estranha luz verde e laranja, e canos pneumáticos ocultos bombeavam danças caleidoscópicas de morte, fileiras de trapos mortuários vermelhos costurados em volumosos penduricalhos pretos. Por esses canos vinha a vontade os odores que nossos humores mais desejavam; as vezes o perfume de pálidos lírios funerários; as vezes o narcótico incenso oriental dos mortos nobres, e por vezes - como me arrepio de lembrar! - o aterrorizante, desalmante fedor do túmulo descoberto.

Por volta das paredes dessa câmara repelente haviam sarcófagos de múmias antigas alternados com vívidos cadáveres formosos, perfeitamente empalhados e cuidados pela arte da taxidermia, e com lápides apanhadas dos mais velhos adros do mundo. Vasos aqui e ali continham crânios de todas as formas, e cabeças preservadas em diversos estágios de dissolução. Ali era possível encontrar as cacholas carecas e apodrecidas de famosos nobres, e as frescas e radiantes cabeças de natimortos.

Também estavam lá estátuas e pinturas, todas de natureza diabólica e algumas feitas por St John e por eu mesmo. Uma pasta trancada, encapada com pele humana curtida, continha desconhecidas e inomináveis gravuras que, segundo rumores, foram feitas por Goya que não ousava reconhecê-las. Haviam ali nauseantes instrumentos musicais, de corda e de sopro, nos quais St John e eu por vezes produzíamos dissonâncias de requintada morbidez e cacodemônico pavor; enquanto numa multitude de gabinetes de ébano repousava a mais incrível e inimaginável variedade de pilhagens vindas de túmulos já reunida pela loucura e perversidade humana. E são desses despojos em particular dos quais eu não devo falar - graças a Deus eu tive a coragem de destruí-los muito antes de considerar destruir a mim mesmo!

As excursões predatórias durante as quais nós coletamos nossos imencionáveis tesouros eram sempre eventos artisticamente memoráveis. Não éramos carniçais vulgares, trabalhávamos apenas sob condições específicas de humor, paisagem, ambiente, clima, estação, e luz da lua. Esse passatempo era para nós a mais única forma de expressão estética, e dávamos aos detalhes os mais meticulosos cuidados técnicos. Um horário impróprio, um efeito de luz dissonante, ou uma manipulação desajeitada da terra úmida, destruiriam quase que totalmente aquela titilação doentia que acompanhava a exumação de qualquer segredo agorento da terra. Nossa busca por cenas singulares e condições picantes era febril e insaciável - St John era sempre o líder, e ele foi quem conduziu o caminho até aquele maldito lugar que nos trouxe nosso horrível e inevitável destino.

Por que maligna fatalidade fomos atraídos até aquele terrível adro holandês? Penso eu que foram os rumores e lendas obscuras, os contos de um homem enterrado por cinco séculos, que havia sido ele mesmo um carniceiro em seu tempo e que havia roubado algo perigoso de uma possante sepultura. Eu posso me lembrar da cena nesses momentos finais - a pálida lua de outono por sobre as lápides, projetando longas e horríveis sombras; as árvores grotescas, se inclinando carrancudas de encontro ao mato negligenciado e as lápides desgastadas; as vastas legiões de estranhamente colossais morcegos que voavam contra a lua; a antiga igreja coberta de heras apontado um enorme dedo espectral para o céu; os insetos fosforescentes que dançavam como fogos-fátuos debaixo dos teixos em um canto distante; os odores de mofo, vegetação, e coisa mais difíceis de se explicar se misturavam debilmente com o vento da noite vindo de distantes pântanos e oceanos; e, o pior de tudo, o fraco uivar grave de algum cão gigantesco que não conseguíamos nem ver nem apontar a origem. Estremecemos quando ouvimos essa sugestão de uivo, nos lembrando das histórias dos camponeses; de que aquele que nós buscávamos havia há séculos sido encontrado nesse mesmo lugar, destroçado e mutilado pelas garras e presas de alguma besta inimaginável.

Eu me lembro de como nós mergulhamos no túmulo do carniceiro com nossas pás, e como nos excitamos com a estética de nós, o túmulo, a lua pálida nos observado, as sombras horríveis, as árvores grotescas, os morcegos titânicos, a igreja arcaica, os vagalumes dançando, os odores nauseantes, o gemido gentil do vento da noite, e o estranho, meio-ouvido uivar sem direção do qual mal tínhamos certeza de que existia.

Foi então que acertamos uma substância mais dura do que o mofo úmido, e nos deparamos com uma podre caixa retangular encrustada de depósitos minerais do terreno que por tanto tempo não foi perturbado. Ele era incrivelmente forte e grosso, mas tão velho que nós finalmente o forçamos a se abrir e nos deleitamos com a visão de seu interior.

Muito - surpreendentemente muito - ainda restava do sujeito apesar do passar de quinhentos anos. O esqueleto, apesar de esmagado em algumas partes pelas mandíbulas da coisa que o havia matado, se manteve inteiro com surpreendente firmeza, e nós nos deliciamos com o crânio limpo e branco e os longos, firmes dentes e os buracos vazios dos olhos que algum dia já brilharam em febre mortuária tais quais os nossos brilhavam naquele momento. No caixão estava posto um amuleto de aparência exótica e curiosa, que aparentemente costumava ser usado em volta do pescoço do falecido. Ele tinha a estranhamente convencional forma de um cão alado agachado, ou uma esfinge com a face semi-canina, e o amuleto era requintadamente esculpido em clássico estilo oriental a partir de uma pequena peça de jade verde. A expressão em suas feições era de extrema repelência, com notas de morte, bestialidade e malevolência. Ao redor da base estava escrito algo em uma linguagem que nem eu nem St John conseguimos identificar; e no fundo, estava gravado um grotesco e formidável crânio, como se fosse a marca de seu criador.

Foi imediatamente após contemplarmos esse amuleto que nós sabíamos que precisávamos possuí-lo; que tão somente aquela relíquia seria nosso tesouro daquele túmulo centenário. Mesmo que sua forma não nos fosse familiar nós a teríamos almejado, mas conforme observamos mais de perto nós vimos que ela não nos era de toda desconhecida. O amuleto era de fato alheio a toda a arte e literatura que leitores sãos e equilibrados conhecem, mas nós o reconhecemos como o artefato mencionado no proibido Necronomicon do Árabe Enlouquecido Abdul Alhazred; o símbolo espiritual pavoroso do culto comedor de corpos da inacessível Leng, na Asia Central. Com todo o cuidado nós traçamos as sinistras origens descritas pelo velho demonologista árabe; origens, ele escreveu, vindas da manifestação obscura sobrenatural das almas daqueles que aborreceram e abocanharam os mortos.

Tomando o objeto de jade verde, tivemos nosso ultimo vislumbre da cor esbranquiçada e do olhar cavernoso de seu dono e fechamos o túmulo como estava quando o encontramos. Enquanto nos apressamos para fora daquele lugar repugnante, o amuleto roubado no bolso de St John, nós pensamos ter visto os morcegos descendo em formação até a terra que nós tão recentemente havíamos vasculhado, como se procurassem por alguma maldita nutrição profana. Mas a lua de outono brilhava fraca e pálida, então não podíamos ter certeza.

Então, novamente, enquanto zarpávamos no dia seguinte para longe da Holanda e de volta para nosso lar, pensamos ter ouvido ao fundo o uivar distante de algum cão gigantesco. Mas o vento do outono gemia triste e abatido, então não podíamos ter certeza.

Pouco menos que uma semana após nosso retorno à Inglaterra, coisas estranhas começaram a acontecer. Nós vivíamos em reclusão; sozinhos, sem amigos, e sem servos em alguns poucos quartos de nosso pequeno casarão em um ermo e afastado brejo; assim nossas portas eram raramente perturbadas pelas batidas de um visitante.

Desde então, no entanto, nós passamos a ser perturbados por o que parecia ser um frequente farfalhar na noite, não só ao redor das portas mas também das janelas, tanto as de cima quanto as de baixo. Em uma ocasião pensamos ter visto um grande e opaco corpo escurecendo a janela da biblioteca enquanto a lua brilhava contra ela, e em outra vez acreditamos ter ouvido guinchos e asas batendo não muito longe. Em cada ocasião nossa investigação não revelava nada, e nós começamos a aceitar as ocorrências como se fossem fruto de nossas imaginações que ainda ecoavam em nossos ouvidos o distante uivar que pensamos ter ouvido no adro holandês. O amuleto de jade então repousava em um nicho no nosso museu, e por vezes nós queimávamos uma estranhamente perfumada vela perante ele. Nós lemos muito no Necronomicon de Alhazred sobre suas propriedades, e sobre a sua relação com os espíritos e os objetos que ele simbolizava; e ficamos perturbados com o lemos.

Então o terror veio.

Na noite de 24 de Setembro, 19--, eu ouvi uma batida na porta de meu aposento. Imaginando que fosse St John, pedi ao batente que entrasse, mas fui respondido apenas por um riso estridente. Não havia ninguém no corredor. Quando eu levantei St John de seu sono, ele declarou total ignorância desse evento, e se preocupou tanto quanto eu mesmo. Foi nessa noite que o distante, inquietante uivar por cima do brejo se tornou uma certa e pavorosa realidade.

Quatro dias depois, enquanto estávamos ambos no museu escondido, por lá começou um silencioso, cuidadoso arranhar na única porta que levava para a escadaria secreta da biblioteca. Nosso terror era agora dividido, sendo que, além de nosso medo do desconhecido, havíamos sempre considerado o temor de que nossa coleção macabra fosse descoberta. Apagando todas as luzes, nós fomos até a porta e a abrimos de supetão; onde então sentimos uma inexplicável corrente de vento, e ouvimos, como se fosse muito ao longe, uma excêntrica combinação de farfalhares, risos abafados, e um tagarelar articulado. Se estávamos loucos, sonhando, ou em sã consciência, não não tentamos determinar. Nós apenas percebemos, com a mais sombria das apreensões, que o tagarelar aparentemente desencarnado era sem sombra de dúvidas na língua holandesa.

Depois disso nós vivemos em crescente horror e fascinação. Nos mantemos sobretudo na teoria de que estávamos juntamente enlouquecendo em consequência de nossa vida de excitações perversas, mas por vezes nos era mais prazeroso dramatizarmo-nos como as vitimas de algum temível terror rastejante. As manifestações bizarras eram agora frequentes demais para se manter a conta. Nossa casa solitária estava aparentemente viva com a presença de algum ser maligno cuja natureza não podíamos adivinhar, e por todas as noites aquele uivar demoníaco rolava junto ao vento do brejo, sempre mais e mais alto. Em 29 de Outubro nós encontramos, na terra macia debaixo da janela da biblioteca, uma série de pegadas absolutamente impossíveis de se descrever. Elas eram tão desconcertantes quanto as hordas de grandes morcegos que assombravam o velho casarão em números crescentes nunca antes vistos.

O horror alcançou o cúmulo em 18 de Novembro, quando St John, que andava para casa depois do anoitecer vindo da sombria estação ferroviária, foi abordado por alguma coisa carnívora terrível que o rasgou em fatias. Seus gritos chegaram até a casa, e eu corri até a terrível cena a tempo de ouvir o zunido de asas e de ver uma vaga sombra nebulosa em silhueta contra a lua que se erguia.

Meu amigo estava morrendo quando falei com ele, e ele não podia me responder com coerência. Tudo que ele podia fazer era sussurrar, “O amuleto - aquela coisa maldita -”

E então ele desabou, uma massa inerte de carne mutilada.

Eu o enterrei na madrugada seguinte em um de nossos jardins negligenciados, e murmurei por cima de seu corpo um dos rituais demoníacos que ele amara em vida. E conforme eu pronunciava a última sentença demoníaca eu ouvi ao longe no brejo o distante uivar de algum cão gigantesco. A lua estava em pino, mas eu não ousei olhar para lá. E quando eu vi no brejo pouco iluminado uma larga sombra nebulosa deslizando de uma colina para a outra, eu fechei meus olhos e me joguei com o rosto contra o chão. Quando eu me ergui, trêmulo, não sei quanto tempo depois, eu cambaleei para dentro de casa e fiz chocantes reverências perante o amuleto consagrado de jade verde.

Agora com medo de viver sozinho na antiga casa no brejo, eu parti no dia seguinte para Londres, levando comigo o amuleto depois de destruir com fogo e enterros o resto da coleção impia do museu. Mas depois de três noites eu já ouvia o uivar novamente, e antes de se passar uma semana sentia estranhos olhares sobre mim sempre que estava no escuro. Em um fim de tarde enquanto eu caminhava pelo Victoria Ebankment para tomar um muito necessário ar fresco, eu vi uma forma negra obscurecer o reflexo na água de uma das lâmpadas. Um vento, mais forte que o vento da noite, lançou-se por cima de mim, e eu soube então que o que quer que tenha pego St John logo pegaria a mim.

No dia seguinte eu cuidadosamente empacotei o amuleto de jade verde e naveguei de volta para a Holanda. Que piedade me seria dada por devolver essa coisa para seu silencioso dono adormecido eu sequer imaginava; mas eu sentia que precisava tentar tomar qualquer atitude concebivelmente lógica. O que o cão era, e por que ele me perseguira até então, ainda eram questões vagas; mas eu ouvi o uivar pela primeira vez naquele adro antigo, e todos os eventos subsequentes incluindo o sussurro de morte de St John serviram para conectar a maldição com o nosso roubo do amuleto. Por isso eu afundei nos mais profundos abismos do desespero quando, em uma estalagem em Rotterdam, eu descobri que ladrões haviam me despojado desse meu único meio de salvação.

O uivar estava alto naquela noite, e pela manhã eu li sobre um feito anônimo no quarteirão mais vil da cidade. A ralé estava em pânico, pois naquela criminosa habitação coletiva fora feita uma matança que ultrapassara os limites de qualquer outro crime cometido na vizinhança. Naquele ninho esquálido de ladrões uma família inteira havia sido rasgada e mutilada por uma coisa desconhecida que não deixou nenhum traço, e aqueles por perto ouviram por toda a noite um distante, profundo e insistente uivar como o de um cão gigante.

Foi então enfim que me pus de pé novamente no insalubre adro em que uma pálida lua de inverno projetava sombras medonhas e árvores sem folhas se curvavam carrancudas de encontro a grama murcha, geada e às lapides trincadas, e a igreja coberta de vinhas apontava um irrisório dedo para um céu nada amigável, e o vento da noite rugia maníaco vindo de pântanos congelados e mares frígidos. O uivar estava então muito distante, e cessou completamente enquanto eu me aproximava do túmulo que por uma vez já havia violado, e fui assustado por uma enorme horda anormal de morcegos que pairavam estranhamente ao meu redor.

Eu não sei por que fui até lá vindo de tão longe senão para rezar, ou balbuciar súplicas insanas e pedir desculpas para a calma coisa branca que lá dentro repousava; mas, qualquer que fosse minha motivação, eu ataquei a terra meio congelada com um desespero parte meu e parte vindo de uma força dominante além de eu mesmo. A escavação foi muito mais fácil do que eu esperava, mesmo que em um ponto eu tenha encontrado uma interrupção bizarra; quando um abutre magro se arremessou do céu frio e se pôs a bicar freneticamente a terra do túmulo até que eu o matei com um golpe de minha pá. Eu finalmente alcancei a caixa retangular apodrecida e removi a tampa úmida. Esse foi o último ato racional que eu realizei em minha vida.

Pois enfiado naquele caixão centenário, coberto por uma série de morcegos enormes e sinuosos que dormiam, estava a coisa ossuda que meu amigo e eu havíamos assaltado; não limpo e plácido como nós tínhamos o visto antes, mas coberto de sangue pisado e farrapos alheios de carne e cabelo, e ele me encarava com malícia e consciência com os buracos dos olhos fosforescentes e presas pontiagudas e ensanguentadas que bocejavam zombeteiras do meu destino inevitável. E foi quando aquilo uivou de sua mandíbula sorridente um uivar profundo e desdenhoso como o de um cão gigantesco, e eu vi que ele segurava em suas garras sangrentas e imundas o perdido e fatídico amuleto de jade verde, que eu apenas berrei e corri para longe como um idiota, meus gritos logo se dissolvendo em repiques de riso histérico.

A loucura corre pelo vento das estrelas… garras e presas afiadas em séculos de corpos… gotejando morte montado numa legião de morcegos vinda das ruínas preto-noite dos templos enterrados de Belial… Agora, enquanto o uivar daquela monstruosidade morta e sem carne se torna mais e mais alto, e o farfalhar e guinchar dos malditos diabos alados se torna mais e mais próximo, eu devo buscar com meu revolver o esquecimento que é meu único refúgio do que não tem nome e que não deve ser nomeado.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A máscara da Morte Rubra

Edgar Allan Poe - AUDIOVISUAL

OUÇA O TEXTO AQUI

Por muito tempo a “Morte Rubra” devastara o país. Jamais pestilência alguma fora tão mortífera ou tão
terrível. O sangue era seu avatar e seu sinal — a vermelhidão e o horror do sangue. Surgia com dores agudas, súbitas vertigens; depois, vinha profusa sangueira pelos poros e a decomposição. As manchas vermelhas no corpo, em particular no rosto da vítima, estigmatizavam-na, isolando-a da compaixão e da solidariedade de seus semelhantes. A irrupção, o progresso e o desenlace da moléstia eram coisa de apenas meia hora.

Mas o príncipe Próspero sabia-se feliz, intrépido e sagaz. Quando seus domínios começaram a despovoar-se, chamou à sua presença um milheiro de amigos sadios e frívolos, escolhidos entre os fidalgos e damas da corte, e com eles se encerrou numa de suas abadias fortificadas. Era um edifício vasto e magnífico, criação do gosto excêntrico, posto que majestoso, do próprio príncipe. Forte e alta muralha, com portões de ferro, cercava-o por todos os lados. Uma vez lá dentro, os cortesãos, com auxílio de forjas e pesados martelos, rebitaram os ferrolhos, a fim de cortar todos os meios de ingresso ao desespero dos de fora, e de escape, ao frenesi dos de dentro. A abadia estava amplamente abastecida. Com tais precauções, podiam os cortesãos desafiar o contágio. O mundo externo que se arranjasse. Por enquanto, era loucura pensar nele ou afligir-se por sua causa. O príncipe tomara todas as providências para garantir o divertimento dos hóspedes. Contratara bufões, improvisadores, bailarinos, músicos. Beleza, vinho e segurança estavam dentro da abadia. Além de seus muros, campeava a “Morte Rubra”.

Ao fim do quinto ou sexto mês de reclusão, quando mais furiosamente lavrava a pestilência lá fora, o príncipe Próspero decidiu entreter seus amigos com um baile de máscaras de inédita magnificência.


Que cena voluptuosa, essa mascarada! Mas me permitam, primeiramente, falar das salas em que se realizou. Era uma série imperial de sete salões. Na maioria dos palácios, tais séries formam longas perspectivas em linha reta, as portas abrindo-se de par em par, possibilitando a visão de todo o conjunto. Aqui, o caso era diverso, como se devia esperar do gosto bizarro do duque. Os apartamentos estavam dispostos de forma tão irregular que a vista abarcava pouco mais de um por vez. A cada vinte ou trinta metros, havia um cotovelo brusco, proporcionando novas perspectivas. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma alta e estreita janela gótica abria-se para o corredor fechado que acompanhava as sinuosidades do conjunto. Essas janelas estavam providas de vitrais cuja cor variava de acordo com o tom predominante da decoração da sala para a qual davam. A sala da extremidade oriental, por exemplo, fora decorada em azul, e intensamente azuis eram suas janelas. A segunda sala tinha ornamento e tapeçarias purpúreas; purpúreas eram as vidraças. A terceira fora pintada de verde, sendo também verdes as armações das janelas. A quarta havia sido decorada e iluminada de alaranjado; a quinta, de branco; a sexta, de violeta. O sétimo aposento estava completamente revestido de veludo preto, que, pendendo do teto e ao longo das paredes, caía em dobras pesadas sobre um tapete de mesmo estofo e cor. Nesse aposento, entretanto, a cor das janelas não correspondia à das decorações. Suas vidraças eram vermelhas, de uma escura tonalidade sanguínea. Cumpre notar que em nenhum dos aposentos havia lâmpada ou candelabro pendendo do teto ricamente ornamentado a ouro. Luz alguma emanava de lâmpada ou candelabro em qualquer das salas. Contudo, nos corredores que as acompanhavam, em frente de cada janela, havia um pesado trípode a sustentar um braseiro cuja luz, filtrando-se através dos vitrais, iluminava o aposento, ocasionando uma infinidade de vistosas e fantásticas aparências. Na sala negra, porém, o clarão, infletindo sobre as negras cortinas através dos vitrais sanguíneos, produzia um efeito extremamente lívido e dava aparência tão estranha à fisionomia dos que ali entrassem que poucos tinham coragem de atravessar-lhe o umbral.

Era nesse mesmo aposento que havia, encostado à parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo ia e vinha num tique-taque lento, pesado, monótono. Quando o ponteiro dos minutos completava a volta do mostrador e a hora estava para soar, saía dos brônzeos pulmões do relógio um som limpo, alto, agudo, extremamente musical, mas de ênfase e timbre tão peculiares que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra viam-se constrangidos a interromper momentaneamente a execução para ouvi-lo. Nesses momentos, era forçoso que os dançarinos parassem de dançar, e um breve desconcerto se apoderava da alegre companhia. Enquanto vibrava o carrilhão do relógio, os mais afoitos empalideciam, e os mais idosos e sensatos passavam a mão pela fronte, como em sonho ou meditação confusa. Tão logo se esvaíam os ecos, um riso ligeiro percorria a assembleia. Os músicos se entreolhavam, sorrindo da própria nervosidade e loucura, fazendo juras sussurradas, uns aos outros, de que o próximo carrilhonar do relógio não mais produziria neles tal comoção. Todavia, sessenta minutos mais tarde (que abrangem três mil e seiscentos segundos do tempo que voa), quando vinha outro carrilhonar do relógio, de novo se dava o mesmo desconcerto, o mesmo tremor, a mesma meditação de antes.

A despeito de tudo isso, a folia ia alegre e magnífica. Os gostos do duque eram originais. Tinha ele olho esperto para cores e efeitos. Desprezava as maneiras da moda em vigor. Seus projetos eram audazes e vivos; suas concepções esplendiam de um lustro bárbaro. Muitos acreditariam tratar-se de um louco. Seus adeptos, porém, sabiam que não. Era preciso ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para assegurar-se de seu juízo perfeito.

Em grande parte, ele comandara pessoalmente a caprichosa decoração das salas para a grande fête; sob sua orientação, haviam sido escolhidas as fantasias. Sem dúvida, elas eram grotescas. Havia muito brilho, muita pompa, muita coisa fantástica, muito daquilo que, desde então, pode-se ver em Hernani. Havia figuras arabescas, com membros e adornos desproporcionados. Havia fantasias delirantes, invenções de louco. Havia muito de belo, de atrevido, de bizarro, algo de terrível, capaz em não pouca medida de provocar aversão. Para lá e para cá, nas sete salas, movimentava-se uma multidão de sonhos. E esses sonhos andavam de um canto a outro, impregnando-se do colorido das salas, fazendo a música extravagante da orquestra soar como o eco de seus passos. Mas logo cantava o relógio de ébano na sala aveludada; por um momento, tudo se fazia imobilidade e silêncio, perturbado apenas por aquela voz. Os sonhos paravam, retesados. Porém, quando os ecos do carrilhão se esvaíam — tinham durado apenas um instante —, um frouxo de riso os acompanhava. E, mais uma vez, a música era reiniciada, os sonhos tornavam a viver e a circular mais alegremente que nunca, banhados pelas cores que a luz dos trípodes, atravessando os vitrais, projetava sobre eles. Entretanto, à última das sete salas, ninguém se aventurava, porque, avançando a noite, a luz filtrada pelas rubras vidraças fazia-se mais sanguínea; e a negrura dos panejamentos causava medo. Aqueles cujos pés pisassem o tapete veludoso ouviriam o som abafado do relógio, e o ouviriam mais solenemente enfático que os convivas dos demais salões.

Esses outros salões estavam cheios de gente; neles, pulsava febril o coração da vida. E a folia continuou, rodopiante, até que o relógio começou a bater meia-noite. A música parou, como já descrevi; acalmou-se o rodopio dos dançarinos; e, como antes, uma constrangida imobilidade tomou conta de todas as coisas. Doze foram as badaladas; por isso, os que meditavam entre os foliões tiveram tempo de meditar mais longa e profundamente. E antes que se esvanecesse o eco da última badalada, muitos dos convivas puderam perceber a presença de um novo mascarado, que, até então, não atraíra as atenções. Entre murmúrios, propagou-se a notícia da nova presença; elevou-se da companhia um zum-zum, um rumor de desaprovação e surpresa, a princípio; de terror, de horror e de náusea, depois.

Numa assembleia de fantasmas, como a que descrevi, era de supor que tal agitação não seria causada por aparição vulgar. Na realidade, a licença carnavalesca da noite fora praticamente ilimitada, mas o novo mascarado excedia em extravagância ao próprio Herodes; ultrapassava, inclusive, os indecisos limites de decoro impostos pelo príncipe. Há fibras no coração dos mais levianos que não podem ser tocadas impunemente. Mesmo para os pervertidos, para quem vida e morte são brinquedos igualmente frívolos, há assuntos sobre os quais não se admitem brincadeiras. Todos os presentes pareciam se dar conta de que, nos trajes e nas atitudes do estranho, nada havia de espirituoso ou de conveniente. Alto e lívido, vestia uma mortalha que o cobria da cabeça aos pés. A máscara que lhe escondia as feições imitava com tanta perfeição a rigidez facial de um cadáver que nem mesmo a um exame atento se perceberia o engano. E, no entanto, tudo isso seria, se não aprovado, ao menos tolerado pelos presentes, não fora a audácia do mascarado em disfarçar-se de Morte Rubra. Suas vestes estavam salpicadas de sangue; sua ampla fronte, assim como toda a face, fora borrifada com horrendas manchas escarlates.

Quando os olhos do príncipe Próspero caíram sobre aquela figura espectral (que, para melhor representar seu papel, caminhava entre os dançarinos com passos lentos e solenes), viram-no ser tomado de convulsões e arrepios de terror ou asco, no primeiro instante; logo depois, porém, seu rosto congestionou-se de raiva.

— Quem se atreve — perguntou roucamente aos cortesãos que o cercavam —, quem se atreve a insultar-nos com essa brincadeira blasfema? Agarrem-no, desmascarem-no! Assim saberemos quem deverá ser enforcado ao amanhecer!


Essas palavras vieram da sala azul, onde se achava o príncipe quando as pronunciou. Ecoavam pelas sete salas, alta e claramente, porque o príncipe era homem destemido e forte, e a música havia cessado, a um gesto seu.

Vieram da sala azul, onde estava o príncipe, rodeado de cortesãos empalidecidos. No primeiro momento que se seguiu à fala do príncipe, houve um ligeiro movimento de avanço do grupo em direção ao intruso. Este se achava perto e, com passos deliberados e firmes, aproximou-se do anfitrião. Mas, devido ao indefinível terror produzido pelo mascarado no ânimo de todos, ninguém se atreveu a agarrá-lo. Sem empecilho, ele se afastou, passando a um metro do lugar onde estava o príncipe. À sua passagem, toda a vasta assembleia, como que movida pelo mesmo impulso, afastou-se do centro das salas para as paredes, e o mascarado pôde seguir seu caminho com desembaraço, e com os mesmos passos solenes e medidos com que passara da sala azul à vermelha, da vermelha à verde, da verde à alaranjada, desta para a branca, e para a violeta, sem que nenhum dos circunstantes tivesse esboçado um gesto para detê-lo. Foi quando, louco de raiva e vergonha da própria e momentânea covardia, o príncipe Próspero cruzou apressadamente as seis salas, sem ninguém a segui-lo: o terror se apoderara de todos. Brandindo o punhal, avançava impetuosa e rapidamente; já estava a três ou quatro passos do vulto que se retirava, quando este, atingindo a extremidade da sala aveludada, virou-se bruscamente e enfrentou seu perseguidor. Nesse instante ouviu-se um grito agudo, e o punhal caiu cintilante no tapete negro, sobre o qual tombou também, instantaneamente e ferido de morte, o príncipe Próspero. Recorrendo à selvática coragem do desespero, um grupo de foliões correu para a sala negra e, agarrando o mascarado, cuja alta figura permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, detiveram-se eles, horrorizados, ao descobrir que a mortalha e a máscara mortuária que tão rudemente haviam agarrado não continham nenhuma forma tangível.

Só então se reconheceu a presença da Morte Rubra. Viera como um ladrão na noite. E, um a um, caíram os foliões nos ensanguentados salões da orgia, e morreram, conservando a mesma desesperada postura da queda. E a vida do relógio de ébano extinguiu-se simultaneamente com a do último dos foliões. E as chamas dos trípodes apagaram-se. E a Escuridão, a Ruína e a Morte Rubra estenderam seu domínio ilimitado sobre tudo.


– Edgar Allan Poe [tradução de José Paulo Paes]. no livro “A causa secreta: e outros contos de horror”. (Vários autores). São Paulo: Boa Companhia, 2013.

sábado, 7 de agosto de 2021

Família Dálea

   Em uma cidade utópica onde as pessoas trabalham perto de casa e há abundância de
alimentos, muita empatia, alto índice de aprendizagem e nada é desperdiçado; os sonhos se realizam: a casa própria, o emprego desejado, ter uma família, respeito a diversidade cultural!

  A cidade é tão limpa que as pessoas em suas ruas e casas andam com os pés no chão, sem qualquer interferência de calçados, lá não existe a tal da havaiana para punir. Nem mesmo existe o conceito de punição! Mas como assim? É isso mesmo.

  A família não é bem como a gente, e é difícil de explicar… vou falar dos Dálea, a mãe Nami é uma jovem professora universitária de tecnologia, o pai Saulo é um dedicado membro da cooperativa de alimentação, e Olívia, uma menina que adora espinafre, a filha do casal.

  Em um lindo entardecer, ao terminarem o trabalho, Nami e Saulo se encontram para buscar Olívia na escolinha comunitária. Juntos eles vão a aconchegante casa para se prepararem para o feriado da cidade Hirassol, comemorado na grande praça com pratos preparados pelos próprios moradores, que ocorrerá no dia seguinte.

  Os Dálea levarão pirulitos pela escolha de Olívia, que passou o ano todo esperando por isso. A preparação é extremamente afetiva, pois é toda feita à mão. Então, a família começou a fazer o doce com o caramelo de corante azul, amarelo e vermelho, todos juntos sempre envolvendo Olívia, que adorava cada coisa e ficava toda suja. Após embalar cada pirulito e limpar a cozinha, eles estavam cansados, felizes e satisfeitos.

 

  No dia tão esperado, a família vai como toda cidade ao encontro na bela praça. Há muita música, alegria, empatia, diversidade, equilíbrio e muitas crianças. Olívia ganha o tão aguardado doce de seu pai, e com o pirulito passa a tarde toda, pois seu encantamento por todas aquelas cores não deixa que ela o aprecie com rapidez. As outras crianças conversam com ela:

- Olívia, você não vai comer o seu?

- Não, só em casa!

- Toma uma mordida do meu! - oferece Gustavo.

- Que delícia! Obrigada!

  Ao início do crepúsculo os adultos estão em efervescente ânimo, Saulo e Nami envolvidos em uma dança apaixonada, ao som da música mais romântica de todos os tempos tomando a pista de dança, os olhos deles brilham tanto que dá para ver daqui, chamando a atenção de todos.

  De repente, as pessoas param de dançar, até que a banda silencia, ouve-se o choro e começam a procurar: o que é aquilo que nunca se ouviu?

  Nami e Saulo acabam procurando e encontrando a Olívia, e sem entender os seus berros, a pegam no colo e ela chora por 6 horas seguidas, o que depois segue para completa calma e enxugam-na as faces. Ela diz:

- Meu pirulito foi pego.

  Um enorme choque percorreu todas as pessoas que passaram a se perguntar umas às outras "Quem pegou o pirulito?", E o que se estabeleceu é que não havia sido algum cidadão dali. Os pais a cada minuto avermelharam-se e questionavam

- Como isto é possível?

- Logo com minha filha?! - subiam a voz e as pessoas se entreolhavam.

- Nós não aceitaremos! - gritou Saulo.

  Neste momento as pessoas em volta resolveram se reunir e pediram licença para conversar com eles. Em um debate aberto resolveram prender Saulo, Nami e Olívia, criando o 1° sistema carcerário e punitivo daquela cidade e foram todos para casa.

  A família não concordou e passou a noite toda gritando.

  Pelas próximas 12 horas pequenos furtos ocorreram, já que agora existia o conceito de posse e apropriação, o que ao amanhecer gerou balbúrdia e desentendimentos, e assim as pessoas passaram a se acusar. 

 De repente começaram a jogar coisas uns nos outros, ofendendo-se inclusive, quando uma mulher botou fogo num ursinho de pelúcia para jogar na multidão que se estendia pela praça, quando ela pensou: "Mas… antes já estava tão bom… dá pra fazer direito " e foi conversando com seus pares.






domingo, 20 de setembro de 2020

A carta roubada

 Nil sapientiae odiosus acumine nimio.

Sêneca 

Em Paris, justamente depois de escura e tormentosa noite, no outono do ano 18..., desfrutava eu do duplo luxo da meditação e de um cachimbo feito de espuma-do-mar, em companhia de meu amigo Auguste Dupin, em sua pequena biblioteca, ou gabinete de leitura, situado no terceiro andar da Rua Dunôt, 33, Faubourg Saint-Germain. Durante uma hora, pelo menos, mantínhamos profundo silêncio; cada um de nós, aos olhos de algum observador casual, teria parecido intensa e exclusivamente ocupado com as volutas de fumaça que tornavam densa a atmosfera do aposento. Quanto a mim, no entanto, discutia mentalmente certos tópicos que haviam constituído o assunto da conversa entre nós na primeira parte da noite. Retiro-me ao caso da Rua Morgue e ao mistério que envolvia o assassínio de Marie Rogêt. Pareceu-me, pois, quase que uma coincidência, quando a porta de nosso apartamento se abriu e entrou o nosso velho conhecido, Monsieur G..., delegado de polícia de Paris.

Recebemo-lo com cordialidade, pois havia nele tanto de desprezível como de divertido, e não o víamos havia já vários anos. Tínhamos estado sentados no escuro e, a entrada do visitante, Dupin se ergueu para acender a luz, mas sentou-se de novo sem o fazer, depois que G... nos disse que nos visitava para consultar-nos, ou melhor, para pedir a opinião de meu amigo sobre alguns casos oficiais que lhe haviam causado grandes transtornos.

— Se se trata de um caso que requer reflexão — disse Dupin —, desistindo de acender a mecha, será melhor examinado no escuro.

— Esta é outra de suas estranhas idéias — comentou o delegado, que tinha o costume de 'chamar "estranhas" todas as coisas que estavam além de sua compreensão e que, desse modo, vivia em meio de uma legião inteira de “estranhezas”.

— Exatamente — disse Dupiu, enquanto oferecia um cachimbo ao visitante e empurrava para junto dele uma confortável poltrona.

— E qual é agora a dificuldade? — perguntei. — Espero que não seja nada que se refira a assassínios.

— Oh, não! Nada disso! Trata-se, na verdade, de um caso muito simples, e não tenha dúvida de que podemos resolvê-lo satisfatoriamente. Mas, depois, pensei que Dupin talvez gostaria de conhecer alguns de seus pormenores, que são bastante estranhos.

— Um caso simples e estranho — comentou Dupin.

— Sim, realmente; mas por outro lado, não é nem uma coisa nem outra. O fato é que todos nós ficamos muito intrigados, pois, embora tão simples, o caso escapa inteiramente a nossa compreensão.

— Talvez seja a sua própria simplicidade que os desorienta — disse o meu amigo.

— Ora, que tolice — exclamou o delegado, rindo cordialmente.

— Talvez o mistério seja um pouco simples demais — disse Dupin.

— Oh, Deus do céu! Quem já ouviu tal coisa?

— Um pouco evidente demais.

O delegado de polícia prorrompeu em sonora gargalhada, divertindo-se a valer:

— Oh, Dupin, você ainda acaba por me matar de riso!

— E qual é, afinal de contas, o caso em apreço? — perguntei.

— Pois eu lhes direi — respondeu o delegado, refestelando-se na poltrona, enquanto tirava longa e meditativa baforada do cachimbo. — Direi tudo em poucas palavras; mas, antes de começar, permitam-me recomendar que este caso exige o maior sigilo. Perderia, provavelmente, o lugar que hoje ocupo, se soubessem que eu o confiei a alguém.

— Continue — disse eu.

— Ou não diga nada — acrescentou Dupin.

 

— Bem. Recebi informações pessoais, de fonte muito elevada, de que certo documento da máxima importância foi roubado dos aposentos reais. Sabe-se quem foi a pessoa que o roubou. Quanto a isso, não há a menor dúvida; viram-na apoderar-se dele. Sabe-se, também, que o documento continua em poder da referida pessoa.

— Como se sabe disso? — indagou Dupin.

— É coisa que se deduz claramente — respondeu o delegado — pela natureza de tal documento e pelo fato de não terem surgido certas conseqüências que surgiriam incontinente, se o documento não estivesse ainda em poder do ladrão, isto é, se já houvesse sido utilizado com o fim que este último se propõe.

— Seja um pouco mais explícito — pedi.

— Bem, atrevo-me a dizer que esse documento dá a quem o possua um certo poder, num meio em que tal poder é imensamente valioso.

O delegado apreciava muito as tiradas diplomáticas.

— Ainda não entendo bem — disse Dupin.

— Não? Bem. A exibição desse documento a uma terceira pessoa, cujo nome não mencionarei, comprometeria a honra de uma personalidade da mais alta posição, e tal fato concede à pessoa que possui o documento ascendência sobre essa personalidade ilustre, cuja honra e tranqüilidade se acham, assim, ameaçadas.

— Mas essa ascendência — intervim — depende de que o ladrão saiba que a pessoa roubada o conhece. Quem se atreveria.

— O ladrão — disse G... — é o Ministro D..., que se atreve a tudo, tanto o que é digno como o que é indigno de um homem. O roubo foi cometido de modo não só engenhoso como ousado. O documento em questão... uma carta, para sermos francos, foi recebida pela personalidade roubada quando esta se encontrava a sós em seus aposentos. Quando a lia, foi subitamente interrompida pela entrada de outra personalidade de elevada posição, de quem desejava particularmente ocultar a carta. Após tentar às pressas, e em vão, metê-la numa gaveta, foi obrigada a colocá-la, aberta como estava, sobre uma mesa. O sobrescrito, porém, estava em cima e o conteúdo, por conseguinte, ficou resguardado. Nesse momento, entra o Ministro D... Seus olhos de lince percebem imediatamente a carta, e ele reconhece a letra do sobrescrito, observa a confusão da destinatária e penetra em seu segredo. Depois de tratar de alguns assuntos, na sua maneira apressada de sempre, tira do bolso uma carta parecida com a outra em questão, abre-a, finge lê-la e, depois, coloca-a bem ao lado da primeira. Torna a conversar, durante uns quinze minutos, sobre assuntos públicos. Por fim, ao retirar-se, tira de cima da mesa a carta que não lhe pertencia. Seu verdadeiro dono viu tudo, certamente, mas não ousou chamar-lhe a atenção em presença da terceira personagem, que se achava ao seu lado. O ministro retirou-se, deixando sua carta — uma carta sem importância — sobre a mesa.

— Aí tem você — disse-me Dupin — exatamente o que seria necessário para tornar completa tal ascendência: o ladrão sabe que a pessoa roubada o conhece.

— Sim — confirmou o delegado — e o poder conseguido dessa maneira tem sido empregado, há vários meses, para fins políticos, até um ponto muito perigoso. A pessoa roubada esta cada dia mais convencida de que é necessário reaver a carta. Mas isso, por certo, não pode ser feito abertamente. Por fim, levada ao desespero, encarregou-me dessa tarefa.

— Não lhe teria sido possível, creio eu — disse Dupin, em meio a uma perfeita espiral de

fumaça —, escolher ou sequer imaginar um agente mais sagaz.

— Você me lisonjeia — respondeu o delegado —, mas é possível que haja pensado mais ou menos isso.

— Está claro, como acaba de observar — disse eu —, que a carta se encontra ainda em poder do ministro, pois é a posse da carta, e não qualquer emprego da mesma, que lhe confere poder. Se ele a usar, o poder se dissipa.

— Certo — concordou G... — e foi baseado nessa convicção que principiei a agir. Meu primeiro cuidado foi realizar uma pesquisa completa no hotel em que mora o ministro. A principal dificuldade reside no fato de ser necessário fazer tal investigação sem que ele saiba. Além disso preveniram-me do perigo, caso ele venha a suspeitar de nosso propósito.

— Mas — disse eu — o senhor está perfeitamente a par dessas investigações. A polícia parisiense já fez isso muitas vezes, anteriormente.

— É verdade. Por essa razão, não desesperei. Os hábitos do ministro me proporcionam, sobretudo, uma grande vantagem. Com freqüência, passa a noite toda fora de casa. Seus criados não são numerosos. Dormem longe do apartamento de seu amo e, como quase todos são napolitanos, não é difícil fazer com que se embriaguem. Como sabe, tenho chaves que podem abrir qualquer aposento ou gabinete em Paris. Durante três meses, não houve uma noite sequer em que eu não me empenhasse, pessoalmente em esquadrinhar o Hotel D... Minha honra está em jogo e, para mencionar um grande segredo, a recompensa é enorme. De modo que não abandonarei as pesquisas enquanto não me convencer inteiramente de que o ladrão é mais astuto do que eu. Creio haver investigado todos os cantos e esconderijos em que o papel pudesse estar oculto.

— Mas não seria possível — lembrei — que, embora a carta possa estar em poder do ministro, como indiscutivelmente está, ele a tenha escondido em outro lugar que sua própria casa?

— É pouco provável — respondeu Dupin. - A situação atual, particularíssima, dos assuntos da corte e principalmente as intrigas em que, como se sabe, D... anda envolvido, fazem da eficácia imediata do documento — da possibilidade de ser apresentado a qualquer momento — um ponto quase tão importante quanto a sua posse.

— A possibilidade de ser apresentado? — perguntei.

— O que vale dizer, de ser destruído — disse Dupin.

— É certo — observei. — Não há dúvida de que o documento se encontra nos aposentos do ministro. Quanto a estar consigo próprio, guardado em seus bolsos, é coisa que podemos considerar como fora da questão.

De acordo — disse o delegado. Por duas vezes, já fiz com que fosse revistado, sob minhas próprias vistas, por batedores de carteiras.

— Podia ter evitado todo esse trabalho — comentou Dupin. — D..., creio eu, não é inteiramente idiota e, assim, deve ter previsto, como coisa corriqueira, essas “revistas”.

— Não é inteiramente tolo — disse G... —, mas é poeta, o que o coloca não muito distante de um tolo.

— Certo — assentiu Dupin, após longa e pensativa baforada de seu cachimbo —, embora eu também seja culpado de certos versos.

— Que tal se nos contasse, com pormenores. como se processou a busca? — sugeri.

— Pois bem. Examinamos, demoradamente, todos os cantos. Tenho longa experiência dessas coisas. Vasculhamos o edifício inteiro, quarto por quarto, dedicando as noites de toda uma semana a cada um deles. Examinamos, primeiro, os móveis de cada aposento. Abrimos todas as gavetas possíveis, e presumo que os senhores saibam que, para um agente de polícia devidamente habilitado, não existem gavetas secretas. Seria um bobalhão aquele que permitisse que uma gaveta "secreta" escapasse à sua observação numa pesquisa como essa. A coisa é demasiado simples. Há um certo tamanho — um certo espaço — que se deve levar

em conta em cada escrivaninha. Além disso, dispomos de regras precisas. Nem a qüinquagésima parte de uma linha nos passaria despercebida. Depois das mesas de trabalho, examinamos as cadeiras. As almofadas foram submetidas ao teste das agulhas. que os senhores já me viram empregar. Removemos a parte superior das mesas.

— Para quê?

— As vezes, a parte superior de uma mesa, ou de outro móvel semelhante, é removida pela pessoa que deseja ocultar um objeto; depois, a perna é escavada, o objeto depositado dentro da cavidade e a parte superior recolocada em seu lugar. Os pés e a parte superior das colunas das camas são utilizados para o mesmo fim.

— Mas não se poderia descobrir a parte oca por meio de som? — perguntei.

— De modo algum, se quando o objeto lá colocado for envolto por algodão. Além disso, em nosso caso, somos obrigados a agir sem fazer barulho.

— Mas o senhor não poderia ter removido. . . não poderia ter examinado, peça por peça, todos os móveis em que teria sido possível ocultar alguma coisa da maneira a que se referiu. Uma carta pode ser transformada em minúscula espiral, não muito diferente, em forma e em volume, de uma agulha grande de costura e, desse modo, pode ser introduzida na travessa de uma cadeira, por exemplo. Naturalmente, o senhor não desmontou todas as cadeiras, não é verdade?

— Claro que não. Mas fizemos melhor: examinamos as travessas de todas as cadeiras existentes no hotel e, também, as juntas de toda a espécie de móveis. Fizemo-lo com a ajuda de poderoso microscópio. Se houvesse sinais de alterações recentes, não teríamos deixado de notar imediatamente. Um simples grão de pó de verruma, por exemplo, teria sido tão evidente como uma maçã. Qualquer alteração na cola — qualquer coisa pouco comum nas junturas — seria o bastante para chamar-nos a atenção.

— Presumo que examinaram os espelhos, entre as tábuas e os vidros, bem como as camas, as roupas de cama, as cortinas e os tapetes.

— Naturalmente! E, depois de examinar desse modo, com a máxima minuciosidade, todos os móveis, passamos a examinar a própria casa. Dividimos toda a sua superfície em compartimentos, que eram por nós numerados, a fim de que nenhum pudesse ser esquecido. Depois, vasculhamos os aposentos palmo a palmo, inclusive as duas casas contíguas. E isso com a ajuda do microscópio, como antes.

— As duas casas contíguas?! — exclamei. — Devem ter tido muito trabalho!

— Tivemos. Mas a recompensa oferecida é, como já disse, muito grande.

— Incluíram também os terrenos dessas casas?

— Todos os terrenos são revestidos de tijolos. Deram-nos, relativamente, pouco trabalho. Examinamos o musgo existente entre os tijolos, verificamos que não havia nenhuma alteração.

— Naturalmente, olharam também os papéis de D. . . E os livros da biblioteca?

— Sem dúvida. Abrimos todos os pacotes e embrulhos, e não só abrimos todos os volumes, mas os folheamos página por página, sem que nos contentássemos com uma simples sacudida, como é hábito entre alguns de nossos policiais. Medimos também a espessura de cada encadernação, submetendo cada uma delas ao mais escrupuloso exame microscópico. Se qualquer encadernação apresentasse sinais de que havia sofrido alteração recente, tal fato não nos passaria despercebido. Quanto a uns cinco ou seis volumes, recém-chegados das mãos do encadernador, foram por nós cuidadosamente examinados, em sentido longitudinal, por meio de agulha.

— Verificaram os assoalhos, embaixo dos tapetes?

— Sem dúvida. Tiramos todos os tapetes e examinamos as tábuas do assoalho com o microscópio.

— E o papel das paredes?

— Também.

— Deram uma busca no porão?

— Demos.

— Então — disse eu — os senhores se enganaram, pois a carta não está na casa, como o senhor supõe.

— Temo que o senhor tenha razão quanto a isso, concordou o delegado. E agora Dupin, que é que aconselharia fazer?

— Uma nova e completa investigação na casa.

 

— Isso é inteiramente inútil — replicou G. . . — Não estou tão certo de que respiro como de que a carta não está no hotel.

— Não tenho melhor conselho para dar-lhe — disse Dupin. — O senhor, naturalmente, possui uma descrição precisa da carta, não e assim?

— Certamente!

E, aqui, tirando do bolso um memorando, o delegado de polícia pôs-se a ler, em voz alta, uma descrição minuciosa do aspecto interno e, principalmente, externo do documento roubado. Logo depois de terminar a leitura, partiu muito mais deprimido do que eu jamais o vira antes.

Decorrido cerca de um mês, fez-nos outra visita, e encontrou-nos entregues à mesma ocupação que na vez anterior. Apanhou um cachimbo e uma poltrona e passou a conversar sobre assuntos corriqueiros. Por fim, perguntei:

— Então, Monsieur G. . . , que nos diz da carta roubada? Suponho que se convenceu, afinal, de que não é coisa simples ser mais astuto que o ministro.

— Que o diabo carregue o ministro! — exclamou.

Sim, realizei, apesar de tudo, um novo exame, como Dupin sugeriu. Mas trabalho perdido, como eu sabia que seria.

— Qual foi a recompensa oferecida, a que se referiu? — indagou Dupin.

— Ora, uma recompensa muito grande . . . muito generosa. . . Mas não me agrada dizer quanto, precisamente. Direi, no entanto, que não me importaria de dar, de meu cheque cinqüenta mil francos a quem conseguisse obter essa carta. A verdade é que ela se torna, a cada dia que passa, mais importante. . . e a recompensa foi, ultimamente, dobrada. Mas, mesmo que fosse triplicada, eu não poderia fazer mais do que já fiz.

— Pois sim — disse Dupin, arrastando as palavras, entre as baforadas de seu cachimbo de espuma —, realmente. Parece-me. . . no entanto. . . G. . . que não se esforçou ao máximo quanto a este assunto. . . Creio que poderia fazer um pouco mais, bem?

— Como? De que maneira?

— Ora (baforada), poderia (baforada) fazer uma consulta sobre este assunto, hein? (baforada). Lembra-se da história que se conta a respeito de Abernethy?

— Não. Que vá para o diabo Abernethy!

— Sim, que vá para o diabo e seja bem recebido! Mas, certa vez, um avarento rico concebeu a idéia de obter de graça uma consulta de Ahernethy. Com tal fim, durante uma conversa entre um grupo de amigos, insinuou o seu caso ao médico, como se se tratasse do caso de um indivíduo imaginário.

— “Suponhamos” — disse o avaro — que seus sintomas sejam tais e tais. Nesse caso, que é que o doutor lhe aconselharia tomar?"

— ”Tomar! Aconselharia, claro, que tomasse um conselho."

— Mas — disse o delegado, um tanto desconcertado — estou inteiramente disposto a ouvir um conselho e a pagar por ele. Daria, realmente, cinqüenta mil francos a quem quer que me ajudasse nesse assunto.

— Nesse caso — respondeu Dupin, abrindo uma gaveta e retirando um livro de cheques

— pode encher um cheque nessa quantia. Quando o houver assinado, eu lhe entregarei

a carta.

Fiquei perplexo. O delegado parecia fulminado por um raio. Durante alguns minutos, permaneceu mudo e imóvel, olhando, incrédulo e boquiaberto, o meu amigo, com os olhos quase a saltar-lhe das órbitas. Depois, parecendo voltar, de certo modo, a si, apanhou uma caneta e, após várias pausas e olhares vagos, preencheu, finalmente, um cheque de cinqüenta mil francos, entregando-o, por cima da mesa, a Dupin. Este o examinou cuidadosamente e o colocou na carteira; depois, abrindo uma escrivaninha, tirou dela uma carta e entregou-a ao delegado de polícia. O funcionário apanhou-a tomado como que de um espasmo de alegria. abriu-a com mãos trêmulas, lançou rápido olhar ao seu conteúdo e, depois, agarrando a porta e lutando por abri-la, precipitou-se, por fim, sem a menor cerimônia, para fora do apartamento e da casa, sem proferir uma única palavra desde o momento em que Dupin lhe pediu para preencher o cheque.

Depois de sua partida, meu amigo entrou em algumas explicações.

— A polícia parisiense — disse ele — é extremamente hábil á sua maneira. Seus agentes são perseverantes, engenhosos, astutos e perfeitamente versados nos conhecimentos que seus deveres parecem exigir de modo especial. Assim, quando G . . . nos contou, pormenorizadamente, a maneira pela qual realizou suas pesquisas no Hotel D . . ., não tive dúvida de que efetuara uma investigação satisfatória . . . até o ponto a que chegou o seu trabalho.

— Até o ponto a que chegou o seu trabalho? — perguntei.

— Sim — respondeu Dupin. — As medidas adotadas não foram apenas as melhores que poderiam ser tomadas, mas realizadas com absoluta perfeição. Se a carta estivesse depositada dentro do raio de suas investigações, esses rapazes, sem dúvida, a teriam encontrado.

Ri, simplesmente — mas ele parecia haver dito tudo aquilo com a máxima seriedade.

— As medidas, pois — prosseguiu —, eram boas em seu gênero, e foram bem executadas: seu defeito residia em serem inaplicáveis ao caso e ao homem em questão. Um certo conjunto de recursos altamente engenhosos é, para o delegado, uma espécie de leito de Procusto, ao qual procura adaptar à força todos os seus planos. Mas, no caso em apreço, cometeu uma série de erros, por ser demasiado profundo ou demasiado superficial, e muitos colegiais raciocinam melhor do que ele. Conheci um garotinho de oito anos cujo êxito como adivinhador, no jogo de "par ou ímpar", despertava a admiração de todos. Este jogo é simples e se joga com bolinhas de vidro. Um dos participantes fecha na mão algumas bolinhas e pergunta ao outro se o número é par ou ímpar. Se o companheiro acerta, ganha uma bolinha; se erra, perde uma. O menino a que me refiro ganhou todas as bolinhas de vidro da escola. Naturalmente, tinha um sistema de adivinhação que consistia na simples observação e no cálculo da astúcia de seus oponentes. Suponhamos, por exemplo, que seu adversário fosse um bobalhão que, fechando a mão, lhe perguntasse: "Par ou ímpar?" Nosso garoto responderia "ímpar", e perderia; mas, na segunda vez, ganharia, pois diria com os seus botões: "Este bobalhão tirou par na primeira vez, e sua astúcia é apenas suficiente para que apresente um número ímpar na segunda vez. Direi, pois, ímpar". Diz ímpar e ganha. Ora, com um simplório um pouco menos tolo que o primeiro, ele teria raciocinado assim: "Este sujeito viu que, na primeira vez, eu disse ímpar e, na segunda, proporá a si mesmo, levado por um impulso a variar de ímpar para par, como fez o primeiro simplório; mas, pensando melhor, acha que essa variação é demasiado simples, e, finalmente, resolve-se a favor do par, como antes. Eu, por conseguinte, direi par”. E diz par, e ganha. Pois bem. Esse sistema de raciocínio de nosso colegial, que seus companheiros chamavam sorte, o que era, em última análise?

— Simplesmente — respondi — uma identificação do intelecto do nosso raciocinador com o do seu oponente.

— De fato — assentiu Dupin — e, quando perguntei ao menino de que modo efetuava essa perfeita identificação, na qual residia o teu êxito, recebi a seguinte resposta:

"Quando quero saber até que ponto alguém é inteligente, estúpido, bom ou mau, ou quais são os seus pensamentos no momento, modelo a expressão de meu rosto, tão exatamente quanto possível, de acordo com a expressão da referida pessoa e, depois, espero para ver quais os sentimentos ou pensamentos que surgem em meu cérebro ou em meu coração, para combinar ou corresponder à expressão”. Essa resposta do pequeno colegial supera em muito toda a

profundidade espúria atribuída a Rochefoucauld, La Bougive, Maquiavel e Campanella.

— E a identificação — acrescentei — do intelecto do raciocinador com o de seu oponente depende, se é que o compreendo bem, da exatidão com que o intelecto deste último é medido.

— Em sua avaliação prática, depende disso — confirmou Dupin. — E, se o delegado e toda a sua corte têm cometido tantos enganos, isso se deve, primeiro, a uma falha nessa identificação e, segundo, a uma apreciação inexata, ou melhor, a uma não apreciação da inteligência daqueles com quem se metem. Consideram engenhosas apenas as suas próprias idéias e, ao procurar alguma coisa que se ache escondida, não pensam senão nos meios que eles próprios teriam empregado para escondê-la. Estão certos apenas num ponto: naquele em que sua engenhosidade representa fielmente a da massa; mas, quando a astúcia do mal-feitor é diferente da deles, o malfeitor, naturalmente, os engana. Isso sempre acontece quando a astúcia deste último está acima da deles e, muito freqüentemente, quando está abaixo. Não variam seu sistema de investigação; na melhor das hipóteses, quando são instigados por algum caso insólito, ou por alguma recompensa extraordinária, ampliam ou exageram os seus modos de agir habituais, sem que se afastem, no entanto, de seus princípios. No caso de D. . ., por exemplo, que fizeram para mudar sua maneira de agir? Que são todas essas perfurações, essas buscas, essas sondagens, esses exames de microscópio, essa divisão da superfície do edifício em polegadas quadradas, devidamente anotadas? Que é tudo isso senão exagero na aplicação de um desses princípios de investigação baseados sobre uma ordem de idéias referentes à esperteza humana, à qual o delegado se habituou durante os longos anos de exercício de suas funções? Não vê você que ele considera como coisa assente o fato de que todos os homens que procuram esconder uma carta utilizam, se não precisamente um orifício feito a verruma na perna de uma cadeira, pelo menos alguma cavidade, algum canto escuro sugerido pela mesma ordem de idéias que levaria um homem a furar a perna de uma cadeira? E não vê também que tais esconderijos tão recherchés só são empregados em ocasiões ordinárias e por inteligências comuns? Porque, em todos os casos de objetos escondidos, essa maneira recherché de ocultar-se um objeto é, desde o primeiro momento, presumível e presumida — e, assim, sua descoberta não depende, de modo algum, da perspicácia, mas sim do simples cuidado, da paciência e da determinação dos que procuram. Mas, quando se trata de um caso importante — ou de um caso que, pela recompensa oferecida, seja assim encarado pela polícia — jamais essas qualidades deixaram de ser postas em ação. Você compreenderá, agora, o que eu queria dizer ao afirmar que, se a carta roubada tivesse sido escondida dentro do raio de investigação do nosso delegado — ou, em outras palavras, se o princípio inspirador estivesse compreendido nos princípios do delegado —, sua descoberta seria uma questão inteiramente fora de dúvida. Este funcionário, porém, se enganou por completo, e a fonte remota de seu fracasso reside na suposição de que o ministro é um idiota, pois adquiriu renome de poeta. Segundo o delegado, todos os poetas são idiotas — e, neste caso, ele é apenas culpado de uma non distributio medii, ao inferir que todos os poetas são idiotas.

— Mas ele é realmente poeta? — perguntei. — Sei que são dois irmãos, e que ambos adquiriram renome nas letras. O ministro, creio eu, escreveu eruditamente sobre o cálculo diferencial. É um matemático, e não um poeta.

— Você está enganado. Conheço-o bem. E ambas as coisas. Como poeta e matemático, raciocinaria bem; como mero matemático, não raciocinaria de modo algum, e ficaria, assim, à mercê do delegado.

— Você me surpreende — respondi — com essas opiniões, que têm sido desmentidas pela voz do mundo. Naturalmente, não quererá destruir, de um golpe, idéias amadurecidas durante tantos séculos. A razão matemática é há muito considerada como a razão par excellence.

— “Il y a à parier” — replicou Dupin, citando Chamfort — “que toute idée publique, toute convention reçue, est une sottise, car elle a convenu au plus grande nombre.” Os matemáticos, concordo, fizeram tudo o que lhes foi possível para propagar o erro popular a que você alude, e que, por ter sido promulgado como verdade, não deixa de ser erro. Como uma arte digna de melhor causa, ensinaram-nos a aplicar o termo "análise" às operações algébricas. Os franceses são os culpados originários desse engano particular, mas, se um termo possui alguma importância — se as palavras derivam seu valor de sua aplicabilidade —, então análise poderá significar algebra, do mesmo modo que, em latim, ambitus significa ambição, religio, religião, ou homines honesti um grupo de homens honrados.

— Vejo que você vai entrar em choque com alguns algebristas de Paris — disse-lhe eu. — Mas prossiga.

— Impugno a validez e, por conseguinte, o valor de uma razão cultivada por meio de qualquer forma especial que não seja a lógica abstrata. Impugno, de modo particular, o raciocínio produzido pelo estudo das matemáticas. As matemáticas são a ciência da forma e da quantidade; o raciocínio matemático não é mais do que a simples lógica aplicada à observação da forma e da quantidade. O grande erro consiste em supor-se que até mesmo as verdades daquilo que se chama álgebra pura são verdades abstratas ou gerais. E esse erro é tão grande, que fico perplexo diante da unanimidade com que foi recebido. Os axiomas matemáticos não são axiomas de uma verdade geral. O que é verdade com respeito à relação — de forma ou quantidade — é, com freqüência grandemente falso quanto ao que respeita à moral, por exemplo. Nesta última ciência, não é, com freqüência, verdade que a soma das partes seja igual ao todo. Na química, também falha o axioma. Na apreciação da força motriz, também falha, visto que dois motores, cada qual de determinada potência, não possuem necessariamente, quando associados, uma potência igual à soma de suas duas potências tornadas separadamente. Há numerosas outras verdades matemáticas que são somente verdades dentro dos limites da relação. Mas o matemático argumenta, por hábito, partindo de suas verdades finitas, como se estas fossem de uma aplicabilidade absoluta e geral — como o mundo, na verdade, imagina que sejam. Bryant, em sua eruditíssima Mitologia, refere-se a uma fonte análoga de erro, ao dizer que, "embora ninguém acredite nas fábulas do paganismo, nós, com freqüência, esquecemos isso, até o ponto de fazer inferência partindo delas, como se fossem realidades vivas". Entre os algebristas, porém, que são, também eles, pagãos as "fábulas pagãs" merecem crédito, e tais inferências são feitas não tanto devido a lapsos de memória, mas devido a um incompreensível transtorno em seus cérebros. Em suma, não encontrei jamais um matemático puro cm quem pudesse ter confiança, fora de suas raízes e de suas equações; não conheci um único sequer que não tivesse como artigo de fé que x2 + px é absoluta e incondicionalmente igual a q. Se quiser fazer uma experiência, diga a um desses senhores que você acredita que possa haver casos em que x2+ px não seja absolutamente igual a q, e, logo depois de ter-lhe feito compreender o que você quer dizer com isso, fuja de suas vistas o mais rapidamente possível, pois ele, sem dúvida, procurará dar-lhe uma surra.

— O que quero dizer — continuou Dupin, enquanto eu não fazia senão rir-me destas últimas observações — é que, se o ministro não fosse mais do que um matemático, o delegado de polícia não teria tido necessidade de dar-me este cheque. Eu o conhecia, porém, como matemático e poeta, e adaptei a essa sua capacidade as medidas por mim tomadas,

levando em conta as circunstâncias em que ele se achava colocado. Conhecia-o, também, não só como homem da corte, mas, ainda, como intrigante ousado. Tal homem, pensei, não poderia ignorar a maneira habitual de agir da polícia. Devia ter previsto — e os acontecimentos demonstraram que, de fato, previra — os assédios disfarçados a que estaria sujeito. Devia também ter previsto, refleti, as investigações secretas efetuadas em seu aparta-mento. Suas freqüentes ausências de casa, à noite, consideradas pelo delegado de polícia como coisa que viria contribuir, sem dúvida, para o êxito de sua empresa, eu as encarei apenas como astúcia, para que a polícia tivesse oportunidade de realizar urna busca completa em seu apartamento e convencer-se, o mais cedo possível, como de fato aconteceu, de que a carta não estava lá. Pareceu-me, também, que toda essa série de idéias referentes aos princípios invariáveis da ação policial nos casos de objetos escondidos, e que tive certa dificuldade, há pouco, para explicar-lhe, pareceu-me que toda essa série de idéias deveria, necessariamente, ter passado pelo espírito do ministro. Isso o levaria, imperativamente. a desdenhar todos os esconderijos habituais. Não poderia ser tão ingênuo que deixasse de ver que os lugares mais intrincados e remotos de seu hotel seriam tão visíveis como um armário para os olhos, as pesquisas, as verrumas e os microscópios do delegado. Percebi, em suma, que ele seria levado, instintivamente, a agir com simplicidade, se não fosse conduzido a isso por simples deliberação. Você talvez se recorde com que gargalhadas desesperadas o delegado acolheu, em nossa primeira entrevista, a minha sugestão de que era bem possível que esse mistério o perturbasse tanto devido ao fato de ser demasiado evidente.

— Sim, lembro-me bem de como ele se divertiu. Pensei mesmo que ele iria ter convulsões de tanto rir.

— O mundo material — prosseguiu Dupin — contém muitas analogias estritas com o imaterial e, desse modo, um certo matiz de verdade foi dado ao dogma retórico, a fim de que a metáfora, ou símile, pudesse dar vigor a um argumento, bem como embelezar uma descrição. O princípio da vis inertiae, por exemplo, parece ser idêntico tanto na física como na metafísica. Não é menos certo quanto ao que se refere à primeira, que um corpo volumoso se põe em movimento com mais dificuldade do que um pequeno, e que o seu momentum subseqüente está em proporção com essa dificuldade, e que, quanto à segunda, os intelectos de maior capacidade, conquanto mais potentes, mais constantes e mais acidentados em seus movimentos do que os de grau inferior, são, não obstante, mais lentos, mais embaraçados e cheios de hesitação ao iniciar seus passos. Mais ainda: você já notou quais são os anúncios, nas portas das lojas, que mais atraem a atenção?

— Jamais pensei no assunto — respondi.

— Há um jogo de enigmas — replicou ele — que se faz sobre um mapa. Um dos jogadores pede ao outro que encontre determinada palavra — um nome de cidade, rio, Estado ou império —, qualquer palavra, em suma, compreendida na extensão variegada e intrincada do mapa. Um novato no jogo geralmente procura embaraçar seus adversários indicando nomes impressos com as letras menores; mas os acostumados ao jogo escolhem palavras que se estendem, em caracteres grandes, de um lado a outro do mapa. Estes últimos, como acontece com os cartazes excessivamente grandes existentes nas ruas, escapam à observação justamente por serem demasiado evidentes, e aqui o esquecimento material é precisamente análogo à desatenção moral que faz com que o intelecto deixe passar despercebidas considerações demasiado palpáveis, demasiado patentes. Mas esse é um ponto, ao que parece, que fica um tanto acima ou um pouco abaixo da compreensão do delegado. Ele jantais achou provável, ou possível, que o ministro houvesse depositado a carta bem debaixo do nariz de toda a gente a fim de evitar que alguma daquela gente a descobrisse.

— Mas, quanto mais refletia eu sobre a temerária, arrojada e brilhante idéia de D. . . pensando no fato de que ele devia ter sempre esse documento à mão, se é que pretendia empregá-lo com êxito e, ainda, na evidência decisiva conseguida pelo delegado de que a carta

não se achava escondida dentro dos limites de uma investigação ordinária, tanto mais me convencia de que, para ocultá-la, o ministro lançara mão do compreensível e sagaz expediente de não tentar escondê-la de modo algum.

"Convencido disso, muni-me de óculos verdes e, uma bela manhã, como se o fizesse por simples acaso, procurei o ministro em seu apartamento. Encontrei D. . . em casa, bocejando, vadiando e perdendo tempo como sempre, e pretendendo estar tomado do mais profundo ennui. Ele é, talvez, o homem mais enérgico que existe, mas isso unicamente quando ninguém o vê.

"Para estar de acordo com o seu estado de espírito, queixei-me de minha vista fraca e lamentei a necessidade de usar óculos, através dos quais examinava, com a máxima atenção e minuciosidade, o apartamento, enquanto fingia estar atento unicamente á conversa.

"Prestei atenção especial a uma ampla mesa, junto à qual ele estava sentado e onde se viam, em confusão, várias cartas e outros papéis bem como um ou dois instrumentos musicais e alguns livros. Depois de longo e meticuloso exame, vi que ali nada existia que despertasse, particularmente, qualquer suspeita.

"Por fim, meus olhos, ao percorrer o aposento, depararam com um vistoso porta-cartas de papelão filigranado, dependurado de uma desbotada fita azul, presa bem nomeio do consolo da lareira. Nesse porta-cartas, que tinha três ou quatro divisões, havia cinco ou seis cartões de visita e uma carta solitária. Esta última estava muito suja e amarrotada e quase rasgada ao meio, come se alguém, num primeiro impulso, houvesse pensado em inutilizá-la como coisa sem importância, mas, depois, mudado de opinião. Tinha um grande selo negro, com a inicial “D” bastante visível, e era endereçada, numa letra diminuta e feminina, ao próprio ministro. Estava enfiada, de maneira descuidada e, ao que parecia, até mesmo desdenhosa, numa das divisões superiores do porta-cartas.

"Mal lancei os olhos sobre a carta, concluí que era aquela que eu procurava. Era, na verdade, sob todos os aspectos, radicalmente diferente da que o delegado nos descrevera de maneira tão minuciosa. Na que ali estava. o selo era negro e a inicial um "D" na carta roubada, o selo era vermelho e tinha as armas ducais da família S...

Aqui, o endereço do ministro fora traçado com letra feminina muito pequena; na outra, o sobrescrito, dirigido a certa personalidade real, era acentuadamente ousado e incisivo. Somente no tamanho havia uma certa correspondência. Mas, por outro lado, a grande diferença entre ambas as cartas, a sujeira, o papel manchado e rasgado, tão em desacordo com os verdadeiros hábitos de D. . ., e que revelavam o propósito de dar a quem a visse a idéia de que se tratava de um documento sem valor, tudo isso, aliado á colocação bem visível do documento, que o punha diante dos olhos de qualquer visitante, ajustando-se perfei-tamente às minhas conclusões anteriores, tudo isso, repito, corroborava decididamente as suspeitas de alguém que, como eu, para lá me dirigira com a intenção de suspeitar.

"Prolonguei minha visita tanto quanto possível e, enquanto mantinha animada conversa com o ministro, sobre um tema que sabia não deixara jamais de interessá-lo e entusiasmá-lo, conservei a atenção presa á carta. Durante esse exame, guardei na memória o aspecto exterior e a disposição dos papéis no porta-cartas, chegando, por fim, a uma descoberta que dissipou por completo qualquer dúvida que eu ainda pudesse ter. Ao observar atentamente as bordas do papel, verifiquei que as mesmas estavam mais estragadas do que parecia necessário, Apresentavam o aspecto irregular que se nota quando um papel duro, depois de haver sido dobrado e prensado numa dobradeira, é dobrado novamente em sentido contrário, embora isso seja feito sobre as mesmas dobras que constituíam o seu formato anterior. Bastou-me essa descoberta. Era evidente para mim que a carta fora dobrada ao contrário, como uma luva que se vira no avesso, sobrescrita de novo e novamente lacrada. Despedi-me do ministro e sai incontinente, deixando uma tabaqueira de ouro sobre a mesa.

"Na manhã seguinte, voltei à procura de minha tabaqueira, ocasião em que reiniciamos,

com bastante vivacidade, a conversa do dia anterior. Enquanto palestrávamos, ouvimos forte detonação de arma de fogo bem defronte do Hotel, seguida de uma série de gritos horríveis e do vozerio de uma multidão. D. . . precipitou-se em direção da janela, abriu-a e olhou para baixo. Entrementes, aproximei-me do porta-cartas, apanhei o documento, meti-o no bolso e o substituí por um fac-símile (quanto ao que se referia ao aspecto exterior) preparado cuidadosamente em minha casa, imitando facilmente a inicial "D" por meio de um elo feito de miolo de pão.

"O alvoroço que se verificara na rua fora causado pelo procedimento insensato de um homem armado de mosquete. Disparara-o entre uma multidão de mulheres e crianças. Mas, como a arma não estava carregada senão com pólvora seca, o indivíduo foi tomado por bêbado ou lunático, e permitiram-lhe que seguisse seu caminho. Depois que o homem se foi, D. . .retirou-se da janela da qual eu também me aproximara logo após conseguir a carta. Decorrido um instante, despedi-me dele. O pretenso lunático era um homem que estava a meu serviço."

— Mas o que pretendia você — perguntei — ao substituir a carta por um fac-símile? Não teria sido melhor, logo na primeira visita, tê-la apanhado de uma vez e ido embora?

— D. . . — respondeu Dupin — é homem decidido de grande coragem. Além disso, existem, em seu hotel, criados fiéis aos seus interesses. Tivesse eu feito o que você sugere, talvez não conseguisse sair vivo de sua presença "ministerial". A boa gente de Paris não ouviria mais notícias minhas. Mas, à parte estas considerações, eu tinha um fim em vista. Você sabe quais são minhas simpatias políticas. Nesse assunto, ajo como partidário da senhora em apreço. Durante dezoito meses, o ministro a teve à sua mercê. Agora, é ela quem o tem a ele, já que ele ignora que a carta já não está em seu poder e continuará a agir como se ainda a possuísse. Desse modo, encaminha-se, inevitavelmente, sem o saber, rumo à sua própria ruína política. Sua queda será tão precipitada quanto desastrada. Está bem que se fale do facilis descensus Averni, mas em toda a espécie de ascenção, como dizia Catalani em seus cantos, é muito mais fácil subir que descer. No presente caso, não tenho simpatia alguma — e nem sequer piedade — por aquele que desce. És esse monstrum horrendum — o homem genial sem princípios. Confesso, porém, que gostaria de conhecer o caráter exato de seus pensamentos quando, ao ser desafiado por aquela a quem o delegado se refere como "uma certa pessoa", resolva abrir o papel que deixei em seu porta-cartas.

— Como! Você colocou lá alguma coisa particular?

— Ora, não seria inteiramente correto deixar o interior em branco. . . Seria uma ofensa. Certa vez, em Viena, D. . . me pregou uma peça, e eu lhe disse, bem-humorado, que não me esqueceria daquilo. De modo que, como sabia que ele iria sentir certa curiosidade sobre a identidade da pessoa que o sobrepujara em astúcia, achei que seria uma pena deixar de dar-lhe um indício. Ele conhece bem minha letra e, assim, apenas copiei, no meio da tolha em branco, o seguinte:

... un dessein si funeste,

s’il n’est digne d’Artrée, est digne de Thyest.

São palavras que podem ser encontradas em Ar trée, de Crébillon.


POE, Edgar Allan. Histórias Extraordinárias. ---------------: Victor Civita, 1981. Tradução de Brenno Silveira e outros.